Mondial de la Bière: amigo ou inimigo das cervejarias artesanais brasileiras?
Se as pessoas soubessem o que aconteceu no Mondial de la Bière 2017, ficariam enojadas...

Mondial de la Bière: amigo ou inimigo das cervejarias artesanais brasileiras?

O último feriadão no Rio de Janeiro foi palco para um dos maiores eventos cervejeiros do país: o Mondial de la Bière 2017. Esta foi a quinta edição do famoso evento internacional no Rio de Janeiro, que conta com a participação de cervejarias de diversas partes do Brasil, além de algumas cervejarias gringas. Sim, o maior evento cervejeiro do Rio é gringo!

Ano após ano, o festival cresce, mas também é protagonista de uma série de polêmicas envolvendo não apenas o público consumidor final, que paga para ir ao evento, mas também seus próprios expositores, em sua maioria, pequenas cervejarias que "sustentam" o evento através de suas cotas de participação por metro quadrado utilizado, e percentual de vendas exorbitantes (27%) repassados à empresa organizadora, a Fagga. 

E quando dizemos que as cervejarias pequenas sustentam o evento, não estamos sendo irônicos. Por algum motivo, as operações de comida (foodtrucks e afins) não pagam cota de participação (ou o chão do evento), pagam apenas o percentual de suas vendas. 

Neste ano, o evento começou com um erro básico, mas que trouxe muito transtorno não somente ao público visitante, como também para o expositor. A marcação errada no copo utilizado para servir as bebidas não lesou apenas os consumidores que foram ao evento no primeiro dia, mas também as próprias cervejarias participantes, que na tentativa de satisfazer o cliente, passaram a servir doses maiores, entretanto, sem nenhuma medição clara, gerando perdas e baixa geração de receita, uma vez que os clientes pagavam pela dose menor, mas muitas vezes levavam o copo "quase" cheio. Um erro bobo, mas que trouxe grande transtorno a todos e que o Mondial tentou "transferir" toda a culpa para a Cisper, a fabricante dos copos.

Mas os equívocos do Mondial de la Bière com o público e os expositores do evento não param por aí. 

E se o sistema utilizado para contabilizar as vendas não fosse confiável o suficiente?

Não faltou relato de pessoas que estranhavam o saldo em seus cartões durante o evento. É claro que em um evento com mais de 1000 rótulos disponíveis, as pessoas podem acabar se confundindo após alguns copos de chopp. Mas ainda assim, algo soa estranho quando muitas pessoas aparecem com a mesma dúvida.

Mas e se os expositores, que pagam uma fortuna para participar do evento, também relatassem desconforto ou dúvidas em relação à contabilização de suas vendas? 

Pois é, não tá fácil pra ninguém, talvez apenas para a organização do evento. 

Em contato com alguns expositores, descobrimos que praticamente todos estão questionando a Fagga e a empresa EyeMobile, responsável pelo sistema de pagamento utilizado no evento, em relação ao volume de vendas computado. Os expositores fizeram uma conta simples para chegar a conclusão de que podem estar sendo lesados em até 30% do volume total de vendas. Contaram a quantidade de barris vazios, estimaram a quantidade de copos de chopp que podem ser servidos com cada barril, consideraram uma margem de perda operacional e compararam com o volume de vendas exibido no sistema. E o resultado foi frustrante.

Segundo um expositor que não quis se identificar, durante o evento não era possível acompanhar o detalhamento das vendas, pois a EyeMobile havia bloqueado tal função. Ele só conseguiu obter o detalhamento de suas vendas alguns dias após o término do evento e mesmo assim, relata que há muitos outros expositores que tiveram o pedido negado. Uma falta de transparência sem tamanho. 

Ao visitar o site da EyeMobile, verificamos que, apesar de seu negócio envolver transações financeiras, não há nenhuma informação no site que garanta que a empresa é auditada ou que cumpre os requisitos básicos de segurança da informação e compliance para realizar esse tipo de operação de forma segura e confiável. Esse tipo de informação, além de certificações de segurança, é bem comum hoje em dia para empresas que processam pagamentos.

Um outro expositor, que além de ser cervejeiro, é especialista em tecnologia da informação, relatou erros amadores em relação à segurança da informação. A senha inicial de acesso ao sistema, fornecida pela própria organização do evento, seguia um padrão básico e óbvio, isto é, qualquer pessoa poderia acessar. Informações confidenciais sobre faturamento de cada cervejaria, pelo menos daquelas que não mudaram sua senha padrão, por falta de instrução da organização ou por falta de conhecimento técnico, ficaram totalmente vulneráveis.

Há ainda um relatório em PDF, gerado pelo sistema da EyeMobile, circulando pelas redes sociais e grupos de whatsapp, onde é possível identificar a quantidade de transações realizadas por todos os expositores.

Neste momento, boa parte das cervejarias buscam uma forma de correr atrás do prejuízo através de vias judiciais e questionam sua participação em eventos futuros promovidos pela Fagga.

Se as pessoas soubessem o que aconteceu no Mondial de la Bière 2017, ficariam enojadas...

Copo do Mondial de la Bière 2017 com erro de marcação

Copo do Mondial de la Bière 2017 com erro de marcação

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